Os filmes bons para assistir continuam vivos dentro de você, mesmo depois que as luzes se acendem.
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Como Bolinha ensinou, o amor não precisa de palavras, só de presença.
Nos filmes bons para assistir, a memória se constrói em três momentos. Primeiro, o entretenimento enquanto o filme passa, e os sentimentos que você teve. Segundo, a reação quando as luzes se acendem: a comoção, a lágrima que teima em mostrar a vulnerabilidade às perdas afetivas, ao amor e ao sofrimento humano e animal. Ou a sensação de que algo se ampliou no seu jeito de ver algum assunto importante.
E terceiro, é o teste da realidade. Os filmes bons para assistir tocam o que temos de mais humano e, mesmo que seja por um breve momento, você pode estranhar a realidade em que estava imerso, antes de entrar no cinema. É por isso que os filmes bons para assistir ficam na memória, porque nos tocam num nível que vai além do entretenimento.
O terceiro momento costuma ser o mais revelador. Veja como ele funciona na prática.
Há duas horas, antes de entrar no cinema, você mal percebia o movimento ao redor. As pessoas andando apressadas, os carros congestionando a avenida, as buzinadas quando algum motorista demorava a aproveitar o sinal que abriu. Tudo parecia normal, quase invisível.
Mas agora as luzes se acendem. Você pisca os olhos, levanta devagar e começa a caminhar em direção à saída. Ao pisar na calçada e ver novamente a avenida, os carros e as pessoas apressadas, por um instante, o mundo lá fora parece estranho. Seu estado de espírito ainda está vibrando na frequência do filme que acabou de ver, como um diapasão que continua soando mesmo depois de a música ter parado.
O que faz um filme bom para assistir é o entretenimento que ele proporciona enquanto estamos na sala escura, e também o que ele deixa em nós depois que a sessão termina. É a “nutrição para a alma” que continua fazendo efeito, como uma refeição que sustenta além do prato.
A música e o cinema não são os únicos com essa capacidade. Palavras carregadas de sentimento também costumam fazer o mesmo. Talvez o exemplo mais marcante esteja em um discurso de 1963.
A Semente de “Eu Tenho Um Sonho”
Martin Luther King Jr. falou para duzentas e cinquenta mil pessoas em Washington. Mais do que palavras, ele lançou um sentimento: uma mistura de tristeza pelo que existia e esperança pelo que poderia existir. E encontrou um solo fértil: a maioria das pessoas presentes já carregava sentimentos semelhantes.
“Eu tenho um sonho de que minhas quatro crianças pequenas vão viver em uma nação onde elas não serão julgadas pela cor de sua pele, mas pelo conteúdo de seu caráter.”
Quantos pais e mães naquela multidão tinham o mesmo anseio? King não precisou convencer ninguém. Ele simplesmente deu voz ao que muitos já sentiam. Essa capacidade de mover pessoas sem esforço para convencer também é chamada de carisma e, de certa forma, está presente nas obras que nos tocam.
O filme Sempre ao Seu Lado, por exemplo, encontra o mesmo solo fértil: toca mais fundo em quem já carrega o amor pelos cachorros.
O Balanço e a Direção do Sentimento
Os filmes bons para assistir e as músicas que escolhemos funcionam assim: carregam uma “semente” de sentimento que tende a nos comover e nos influenciar. Eles têm uma espécie de carisma.
Mas há um detalhe importante: a escolha dos filmes bons para assistir no momento certo faz muita diferença, assim como a receptividade de quem recebe. Empurrar um balanço de parquinho é muito mais fácil quando ele já está indo na direção do seu empurrão. Por isso, a escolha do que ver ou ouvir importa tanto quanto o momento em que você está.
Martin Luther King Jr. sabia disso: aquele “Eu tenho um sonho” não ecoou porque era um discurso bonito. Ecoou porque encontrou um povo que já carregava aquele anseio e estava pronto para ouvi-lo.
Se alguém está muito triste, empurrar o balanço com força na direção oposta, rumo a uma alegria intensa, pode desgoverná-lo. Uma música serena, aos poucos, tende a preparar o estado de espírito, até que a alegria encontre espaço para chegar. O prazer de viver uma história no cinema pode ser também uma boa nutrição para a alma, quando a escolha está em sintonia com o momento de quem assiste.
Sempre ao Seu Lado e a lição de Hachiko na Estação Shibuya
Filmes baseados em fatos reais costumam comover de forma ainda mais intensa. Eu percebi isso ao final de Sempre ao Seu Lado, a história real do professor universitário e seu cão Hachiko. É um daqueles filmes bons para assistir que continuam vivos depois que as luzes se acendem.
No filme, Hachiko ia todos os dias à estação de metrô Shibuya, em Tóquio, esperar seu tutor (interpretado por Richard Gere). Hoje há uma estátua de bronze em homenagem a ele na estação.
Quando estive no Japão, em 1990, deixei minha cadela Bolinha em casa, sendo cuidada por parentes e amigos. Cada um se revezava para dar a refeição da manhã ou do fim da tarde e levá-la para passear. Na viagem, contei a história da Bolinha para as pessoas com quem estava. Ao chegar na Estação Shibuya, alguns tiraram uma foto minha ao lado da estátua de Hachiko.
Anos depois, ao assistir Sempre ao Seu Lado, um filme que me marcou bastante, Bolinha já havia partido há quase uma década. Quando as luzes do cinema se acenderam, eu estava tão comovido que disfarçava as lágrimas, aquele movimento rápido de secar o canto do olho antes que alguém percebesse.
Lá fora, o trânsito e as pessoas andando apressadas, as mesmas coisas que duas horas antes eu mal notava. Só que agora o contraste era nítido e o valor sentimental daquela memória preenchia o peito. O congestionamento e a pressa, adversários dos nossos momentos vividos, concorrem regularmente para nos dizer o que é a vida, mas naquele instante não tinham a menor chance.
Você nunca teve uma lágrima rebelde e insistente, ao acenderem as luzes do cinema?
Bolinha conseguiu me ensinar o que o congestionamento e a pressa do lado de fora não conseguiram. Sua última cena, antes de partir, foi fazer algo que nunca havia feito: lamber o dorso da minha mão, apesar da sua dor, despedindo-se com gratidão. E foi com esse gesto simples, sem pressa, que Bolinha me ensinou o que nenhum filme sobre lealdade conseguiria: que o amor não precisa de palavras, só de presença.
Uma playlist de músicas serenas e os filmes bons para assistir que nos tocam são como o discurso de Martin Luther King Jr.: carregam um pacote de sentimento que pode nos influenciar de modo genuíno e que é uma nutrição para a alma. E, assim como o balanço do parquinho, a escolha certa na hora certa faz toda a diferença.
Afinal, prender a atenção durante duas horas é o começo. Os filmes bons para assistir são aqueles que, mesmo após as luzes se acenderem, continuam vivos dentro de você. E são esses filmes que nos acompanham muito depois da sessão terminar. “Sempre ao Seu Lado” me mostrou isso na prática.
Disclaimer
O conteúdo publicado no Arte e Felicidade tem caráter cultural, informativo e reflexivo. Os artigos, playlists e reflexões compartilhados neste espaço são fruto de uma trajetória pessoal de mais de 40 anos dedicados à exploração do desenvolvimento pessoal, da cultura e do estilo de vida — com ênfase especial na música, no cinema e na literatura como fontes de inspiração e beleza.
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Biografia do Autor
Vitor Carvalho nasceu em 1949 e construiu, ao longo de mais de 40 anos, uma trajetória singular na intersecção entre crescimento pessoal, cultura e estilo de vida. A partir de 1980, alimenta um interesse contínuo pelo estudo de práticas que integram corpo e expressão, o que mais tarde se refletiria em sua abordagem como comunicador e facilitador de grupos.
Sua formação em Biodanza foi aprofundada com workshops e treinamentos no Brasil e no Japão. Por 15 anos, desenvolveu e coordenou workshops que integravam natureza, música e relações humanas significativas — primeiro em seu instituto em São Paulo, depois em um sítio rural.
Autor de dois livros — "O Planeta das Ilusões" (1986) e "Os Sonhadores Competentes" (1995) —, Vitor também ministrou, por 28 anos, cursos de Oratória com Confiança, onde unia princípios de postura, respiração e presença cênica com técnicas de expressão vocal e facial.
Hoje, no Arte e Felicidade, Vitor compartilha reflexões sobre como a música, o cinema e a literatura podem inspirar uma vida com mais beleza, prazer e satisfação — um convite para enxergar nas artes uma fonte de crescimento pessoal e alegria cotidiana.
