O apego, as músicas e o amor que ainda não se completou

Filho adulto lendo um papel amarelado para a mãe idosa em uma sala simples, os dois com os olhos marejados sob a luz quente da janela. O apego que se desfaz quando o amor volta a fluir depois de anos de silêncio.

Talvez o apego seja o amor que ainda não se completou. E o amor pode se completar em qualquer momento da vida.

Imagem criada com suporte de IA

Como o filho que leu o papel para a mãe depois de anos de silêncio, o afeto pode voltar a fluir a qualquer hora.


Há quem considere que o apego é o contrário do amor. Mas talvez não seja: ele pode nascer do amor. Quando um sentimento de amor não encontra onde se completar, ele costuma se agarrar. Talvez o apego seja, afinal, o amor que ainda não se completou. Vamos explorar essa possibilidade, neste artigo, e retomar ao final a ideia de que o amor pode se completar em qualquer momento da vida.


Essa ideia veio da minha mãe e também da minha própria vida. Nas próximas linhas, conto uma história que carreguei por mais de vinte anos e deixo que três canções da música brasileira mostrem os caminhos que o amor costuma tomar quando não chega ao seu destino.


A fonte: o amor antes do corte


Eu tinha quatro anos e minha mãe e eu expressávamos afeto um pelo outro sem barreira. Era a coisa mais natural do mundo. Um abraço, um colo, uma palavra. Nada ficava guardado.


Meu pai morreu. Minha mãe passou a cuidar do estabelecimento dele, enquanto sentia a tristeza de ter perdido o marido. Em algum momento daquele período, ela precisou me enviar para a casa de um parente, por uns tempos. Quando voltei, ela estava amarga e preocupada. O afeto entre nós tinha sido cortado.


Eu tinha cinco anos. Nem minha mãe nem eu falamos sobre isso por mais de vinte anos. O que era fonte virou silêncio.


O que é apego


Bem mais tarde, em uma conversa, minha mãe me disse algo que só entendi por completo muitos anos depois: “Às vezes temos apegos, porque não conseguimos completar o nosso sentimento de amor. E quando completamos, o apego tende a se aquietar, e o amor que já estava lá ganha espaço para ser sentido e expresso”.


Essa frase organiza o que vem a seguir. Nessa leitura, o apego pode ser visto como o amor que parou no meio do caminho. Ele continua vivo, mas sem destino, e talvez por isso se agarre. Onde esse amor não se completa, costuma sobrar o desejo de vingança, a posse ou a adoração.


Três canções da música brasileira ajudam a reconhecer essas três formas de apego com uma clareza que poucas explicações alcançam.


Apego como vingança: a música “Vingança”, de Lupicínio Rodrigues

Homem em um bar antigo, visto de costas, brindando sozinho com uma fotografia rasgada sobre a mesa, enquanto a silhueta de uma mulher que parte se reflete na janela escura. A vingança silenciosa de um amor que não se completou.


Na canção “Vingança”, de Lupicínio Rodrigues, o narrador foi traído e não completou o amor que sentia. O que sobrou foi desejo de vingança.


Ele quer vê-la sofrer. O autor compara a mulher que foi sua companheira às pedras que rolam na estrada, sem nunca encontrar um canto de sossego. Quem quiser pode ouvir a melodia e conferir a letra completa: Vingança, de Lupicínio Rodrigues.


O apego dele é pela ferida. Ele se agarra à história de ter sido traído, como quem não encontra outro lugar para descansar. O amor não se completou, e essa história passou a ocupar o espaço que ele reservava para amar.


Há um outro verso que mostra isso com precisão. Nele, o narrador confessa o prazer que sentiu ao saber do sofrimento dela. O prazer no sofrimento da pessoa amada costuma ser fruto de um desejo de vingança. Um possível resíduo do que o amor vira quando não consegue se completar. O verso final mostra até onde esse desejo pode chegar.


Ele deseja que ela role sem descanso. Mas quem não descansa é ele. A vingança mantém o outro preso à nossa história e mantém a gente preso ao passado. Quem deseja punição acredita que está resolvendo a mágoa e acaba se prendendo à ferida. Esse é o primeiro riacho que sai da fonte, pois o amor que não se completou pode virar vingança.


Apego como posse: a música “Tenho Ciúme de Tudo”, interpretada por Orlando Dias


Na canção “Tenho Ciúme de Tudo”, interpretada por Orlando Dias, o amor fala a linguagem da propriedade. Os lábios são meus. As mãos são minhas. A pessoa amada deixa de ser alguém e vira um território.


A posse cresce e atinge um nível bem elevado. O autor diz que sente ciúme de tudo o que toca a pessoa amada: o sol, o luar, o mar e até a própria roupa que ela veste. Quem quiser pode ouvir a melodia e conferir a letra completa: Tenho Ciúme de Tudo, por Orlando Dias.


Quando o medo de perder vira apego e posse, o mundo inteiro pode se tornar ameaça. O sol brilha para todos. A roupa toca o corpo dela o dia inteiro. Nada escapa. E na letra inteira ela nunca fala. Aqui há captura. É o segundo riacho: o amor que não se completou pode virar posse.


Apego como adoração


Na canção “Pensando em Ti”, de David Nasser e Herivelto Martins, a pessoa amada ocupa todos os espaços. A fumaça do cigarro, as páginas dos livros, as orações.

O verso que resume essa adoração é um pedido. O autor suplica um pequeno alívio: poder pensar em Deus, ainda que por um momento. Quem quiser pode ouvir a melodia e conferir a letra completa: Pensando em Ti, de David Nasser e Herivelto Martins.

Esse amor parece não deixar espaço nem para o que é maior que ele. A pessoa amada passa a ocupar o lugar do Todo, e o amante pede licença para respirar.

A adoração pode ser o sinal externo do apego de quem não encontra satisfação nas outras coisas da vida e costuma concentrar tudo em uma pessoa só, como se ela fosse suprir tudo. O amor que poderia abrir a alma parece tê-la encolhido. Então, o terceiro riacho é o amor que não se completou e pode virar adoração.


A presilha que se abriu


Volto à minha história. Durante os anos de silêncio com minha mãe, meus namoros carregavam o mesmo medo, o mesmo apego. Eu me agarrava às pessoas com o receio de perder, porque tinha aprendido cedo como era perder o afeto de alguém que estava vivo.

Já adulto, eu sabia que aquilo vinha do corte. E passei todos aqueles anos sem expressar afeto por minha mãe. Tinha virado normal desde os cinco anos.

Um dia senti na pele o que tinha acontecido. Resolvi romper a barreira que se instalou mais de vinte anos antes. Fui visitá-la com um compromisso que decidi tornar realidade.

Cheguei e disse que queria falar algo importante. Levei escrito em um papel, porque sabia que a emoção não me deixaria dizer tudo. Li para ela: “Mãe, eu quero te dizer algo que é um desafio para mim. Por isso, eu trouxe escrito neste papel para ler para você. Eu não quero deixar de te dizer exatamente essas palavras que escrevi. Embora eu nunca tenha falado, mãe, eu nunca deixei de gostar de você”.

Eu tinha mágoa e tristeza. O que saiu foi o afeto, expresso pela primeira vez depois do corte. Olhei nos olhos dela e vi que também estavam marejados como os meus. Não tocou nenhuma trilha sonora. Não era um filme e não precisava ser.


Apesar da tristeza pelo que aconteceu, o que senti foi amor por minha mãe. Se fosse um filme, estaria tudo resolvido naquela cena. Não estava. Foi uma decisão tomada a duras penas. Expressar amor pode ser difícil. Apenas abriu uma presilha que dificultava muito deixar a mágoa do corte ir embora.


Foi uma experiência em que deixar ir não foi fácil. Mas foi o começo.


As três formas de não completar o amor


Se o apego é um amor incompleto, as três canções deste artigo sugerem, cada uma à sua maneira, o que pode acontecer quando o amor não se completa.

O amor incompleto e o amor que se completa
Quando um amor fica incompleto, ele pode preencher o espaço com vingança, posse ou adoração, como as três canções mostram. O amor que se completa costuma se expressar de outra forma: presença, cuidado, alegria, afeto.

Cada canção, uma forma
Em “Vingança”, de Lupicínio Rodrigues, o amor parado virou desejo de vingança. Em “Tenho Ciúme de Tudo”, na voz de Orlando Dias, virou posse. Em “Pensando em Ti”, de David Nasser e Herivelto Martins, virou adoração. Três destinos diferentes para o mesmo amor que não encontrou onde se completar.

Na história que contei aqui, a presilha se abriu depois de mais de vinte anos de silêncio. Talvez o apego seja um sinal de que um amor ficou incompleto. E o amor pode se completar em qualquer momento da vida.

O que escrevi aqui reconhece o valor dos compositores e dos intérpretes dessas três canções. Eles criaram beleza a partir de uma dificuldade que muita gente vivia na época e que muitos ainda vivem hoje. Deram a esse sentimento a cor do romantismo, em especial nas melodias, que seguem emocionando. Se essas canções me ensinaram tanto sobre o apego, talvez tenha sido porque foram feitas com conhecimento e experiência.

Disclaimer

O conteúdo publicado no Arte e Felicidade tem caráter cultural, informativo e reflexivo. Os artigos, playlists e reflexões compartilhados neste espaço são fruto de uma trajetória pessoal de mais de 40 anos dedicados à exploração do desenvolvimento pessoal, da cultura e do estilo de vida — com ênfase especial na música, no cinema e na literatura como fontes de inspiração e beleza.

Cada leitor é convidado a refletir, a partir de sua própria experiência, sobre como a arte pode enriquecer o dia a dia e inspirar uma vida com mais significado, beleza do cotidiano e crescimento pessoal.

Este espaço não substitui orientações de profissionais habilitados em suas respectivas áreas de atuação.

Biografia do Autor

Vitor Carvalho nasceu em 1949 e construiu, ao longo de mais de 40 anos, uma trajetória singular na intersecção entre crescimento pessoal, cultura e estilo de vida. A partir de 1980, alimenta um interesse contínuo pelo estudo de práticas que integram corpo e expressão, o que mais tarde se refletiria em sua abordagem como comunicador e facilitador de grupos.

Sua formação em Biodanza foi aprofundada com workshops e treinamentos no Brasil e no Japão. Por 15 anos, desenvolveu e coordenou workshops que integravam natureza, música e relações humanas significativas — primeiro em seu instituto em São Paulo, depois em um sítio rural.

Autor de dois livros — "O Planeta das Ilusões" (1986) e "Os Sonhadores Competentes" (1995) —, Vitor também ministrou, por 28 anos, cursos de Oratória com Confiança, onde unia princípios de postura, respiração e presença cênica com técnicas de expressão vocal e facial.

Hoje, no Arte e Felicidade, Vitor compartilha reflexões sobre como a música, o cinema e a literatura podem inspirar uma vida com mais beleza, prazer e satisfação — um convite para enxergar nas artes uma fonte de crescimento pessoal e alegria cotidiana.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *